Blog generalista,condimentado com factos reais e surreais, momentos de devaneio, de reflexão e análise dessa enorme fonte de estórias: o quotidiano de todos nós.
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É nesta cidade da cinzenta Bélgica que, de certa forma, começa a identidade europeia. Em Bruxelas respira-se União Europeia e estar lá é também perceber que a Europa tem um rosto e um rumo social, algo que para quem vive longe dos centros nevrálgicos de decisão europeus é um pouco complicado de sentir, um eco demasiado longínquo diria mesmo…
Em Bruxelas, arrisco afirmar, 70% a 80% das pessoas que andam nas ruas, trabalham ou têm um negócio, não são belgas. E mesmo dentro dos belgas há que dividi-los entre flamengos e franceses. Ali a mescla de povos é tão grande que andar na rua à noite, à procura de um ponto específico, pode ser ocasião para ouvir dezenas de vezes: “We are not Belgians, sorry”. Quem tem boca vai a Roma mas não a certos sítios de Bruxelas…
A minha primeira impressão de Bruxelas foi um pouco negativa, pois cheguei ao aeroporto de no último voo da noite. O aeroporto estava imensamente vazio, tudo fechado e ninguém no horizonte. Para mal dos meus pecados a partir da meia-noite não havia mais comboios e a minha cábula tão bem organizada, seria substituída por um taxista made in Marrocos que desde logo me avisou em francês: “aqui chove todos os dias e quase nunca vês o sol, c’est la Belgique”…
No dia seguinte, certinho, direitinho: chuva logo de manhãzinha para abrir a pestana, frio de rachar e tudo com ar muito apático pelas ruas. Devo dizer que apenas ao segundo dia de estadia vi alguém a sorrir na rua, facto que me deixou algo abismado. E apenas no quinto e último dia vi Sol na cidade. Bruxelas tem uma meteorologia muito pouco ao gosto da malta de cá do Sul. Por motivos profissionais, neste dia, conheci o grupo com quem passaria os 5 dias na Bélgica: uma búlgara, uma polaca, uma italiana, uma croata, uma alemã, duas eslovenas, dois suecos, um italiano, um cipriota e um romeno. E foi esta diversidade cultural que verdadeiramente me surpreendeu por estes dias, especialmente porque nunca pensei que gente tão diferente, pudesse conviver de forma tão saudável, amistosa e positiva como acabou por se constatar, fantástico!
Este grupo (nomeadamente os oriundos dos países mais frios) gozou infinitamente com o facto de eu andar sempre de guarda-chuva ao alto, pois a maioria deles nem usava tal artefacto ou usava apenas quando chovia copiosamente: “you’re a rain maniac!”, diziam-me por entre gargalhadas amistosas. Lá me lembrei do Mr. Scolari: “e o burro sou eu??”.
Bruxelas é uma cidade de negócios, capital da burocracia europeia. Tem uma arquitectura em algumas zonas bem pitoresca e muito interessante para quem aprecia estilo Gótico. Está dotada com vários museus, prédios e hotéis históricos, como o majestoso Hotel Metropole (http://www.metropolehotel.com), onde tive oportunidade de dormitar, que já tinha tido Einstein como hóspede, tal como alguns nazis da vizinha Alemanha, segundo fontes locais.
As ruas da cidade são limpas e estão dispostas quase a regra e esquadro. Surpresa: ali ninguém tem motivo para atirar cigarros para o chão, pois em todas as ruas existem pequenos depósitos específicos para beatas, um verdadeiro exemplo a seguir. Vê-se muita polícia pelas ruas e a cidade conta com algumas zonas especialmente turísticas como a majestosa “Grand Place”, uma praça ao melhor estilo da realeza, o Atomium, símbolo do progresso ou ainda o Palais du Cinquentenaire, o palácio mais sumptuoso que alguma vez vi. Os restaurantes da cidade são variados mas é possível fazer refeições de qualidade a um preço minimamente acessível. Num dos restaurantes onde repastei tive oportunidade de conhecer mais um emigrante português a trabalhar na Bélgica, não fosse o sotaque do rapaz tão nortenho que rapidamente me apercebi do sangue Tuga que lhe corria nas veias: “aux revooirrrreee, boltem sempre”… Para quem gosta de cerveja (eu devo ser o único europeu que não gosta de cerveja, lol), a Bélgica é o paraíso: vários tipos de cerveja e muitos locais para as degustar de forma conveniente. Os belgas acompanham a cerveja com salsichas e um queijo que agradou ao meu paladar. Na cidade bebe-se cerveja a um ritmo alucinante mas para alguns povos, como os polacos e os alemães, pelos vistos a cerveja é fraquinha: “this is wine” diziam para completa estupefacção dos Belgas.
É também costume por aquelas bandas beber o chamado “vin chaud”, que traduzido à letra significa vinho quente, um vinho morno com uma rodela de limão ou laranja, capaz de aquecer os espíritos mais gélidos da cidade e fazer corar as faces mais branquinhas. Que o diga a minha amiga polaca que depois de provar tal iguaria, não mais parou de agitar as hostes sulistas…
Mas a principal iguaria da Bélgica é sem dúvida o chocolate. Desde o aeroporto até à mais recôndita rua de Bruxelas o cacau prolifera nas mais diversas formas e feitios. Há para todos os gostos: trufas, com frutos secos, chocolate preto, branco, tudo com um paladar e aroma que faz jus à fama que o chocolate belga tem no mundo e que na Europa apenas tem concorrência nos chocolates suíços. Se somarmos a isto o facto de eu ser um insaciável comedor de chocolate, facilmente se percebe que a estadia foi imensamente achocolatada e que a minha mala de viagem viajou com a maior dose de doçaria de sempre…
O símbolo da cidade é no mínimo caricato ao primeiro olhar. Chama-se Manneken-Pis e trata-se de uma estátua de um garoto, pasme-se, a urinar para a bacia da sua fonte. Por entre o meu multicultural grupo ficou conhecido como “the pissing man”, vá-se lá saber porquê… Nestes dias achocolatados, na agenda constou uma visita ao Parlamento Europeu. Um conjunto de edifícios sumptuosos marcam a zona da instituição. À entrada a segurança está aparentemente ao nível de um aeroporto mas chegados lá dentro, o mundo está todo lá dentro, por mais incrivel que esta afirmação possa parecer... Centenas e centenas de pessoas vagueiam no Parlamento Europeu, uns em trabalho, outros em visita. Alguns pormenores interessantes:
- os cacifos dos Eurodeputados estão num dos enormes corredores que dão acesso a um dos bares do parlamento europeu, todos divididos por ordem geográfica e com os nomes dos respectivos à vista de todos. Adivinhem qual é o país com mais cacifos? Alemanha, claro...
- 1/3 dos trabalhadores do Parlamento são tradutores e interpretes. Todo o santo documento que ali é feito (e são aos milhares e milhares por dia) tem de ser traduzido em 23 línguas, tarefa gigantesca mas comportável perante a organização mais eficaz que alguma vez vi. A título de exemplo tive oportunidade de assistir à reunião de um Comité Europeu, onde logo à entrada, os visitantes tinham estantes em todas as línguas com todos os documentos que iriam ser debatidos na reunião e com um empregado encarregue, apenas, de ir abastecendo aquilo de papelada, tal é o movimento infernal dentro da instituição.
- os elevadores do parlamento levam 15 a 20 pessoas de cada vez, mas arranjar lugar num, pode ser uma tarefa muitíssimo complicada.
- num dos pisos do edificio está continuamente a tocar ao vivo uma banda de jazz, em cima de um palanque redondo, sendo que à volta deste estão dispostas várias mesas onde se pode degustar uma bebida, num ambiente intimista, sofisticado e europeiamente muito agradável. Realço o facto do meu colega sueco, perante tal banda me ter dito o seguinte: "lá fora há algumas pessoas a mendigar e aqui estão a pagar a esta banda para estar aqui a tocar todos os dias, não é justo". Incrível consciência social para quem ganha 3 ou 4 vezes mais que nós... Além de tudo o que referi, o que me impressionou mais no Parlamento foi o grande “à vontade”, a boa disposição e ambiente que ali se respiram. Dada a multiculturalidade que ali vagueia e o peso burocrático da instituição é incrível ver como a organização / multiculturalidade têm ali um casamento muito feliz. Ao sair do Parlamento tive a nobre sensação de que, agora sim, sou um verdadeiro cidadão europeu.
A terminar que o texto já vai longo, confesso que não me vejo a viver em países tão cinzentos e copiosamente chuvosos como a Bélgica, preciso de Sol para alma, mas durante estes dias, sem dúvida alguma, “i loved the rain”!!Fantásticos dias com um fabulástico grupo, valeu ;)
Mario Lino teve uma miragem e conseguiu há uns meses atrás colocar um chavão na cabeça dos Tugas, quando apelidou a Margem Sul como “o deserto da margem sul”.
Ora, sendo eu um morador da Margem Sul, há anos que me deparo com uma espécie de síndrome de ser lá morador. Para os meus amigos, conhecidos e colegas Lisboetas é como se eu morasse pra lá de Bagdad, num sitio onde vivem marcianos e outra gente meio maluca.
A altas horas ou ao final da tarde é costume ouvir frasear: “ainda vais ter de ir para a margem sul, credo!” ou “vais demorar para aí uma hora a chegar à margem sul” ou “devias morar em Lisboa, a margem sul é tão longe” ou ainda “xiii ainda vais para o deserto!!”.
Convém fazer aqui um contraditório: afinal o que é essa coisa de Margem Sul? É o bocado de terra que fica a sul do rio Tejo e que vai de Cacilhas até ao Algarve? É a península de Setúbal? É a área dominada pelos comunistas à volta da festa do Avante? Desconheço o verdadeiro significado de “Margem Sul” quando aplicado neste contexto mas nada que uma pesquisa não resolva.
Pois bem, convém aqui esclarecer algumas coisas:
1 - Da minha casa até ao meu local de trabalho (perto do Marquês de Pombal) são 18 km’s. Quantos moradores na área da Grande Lisboa estão tão perto do trabalho? Certamente poucos, porque o centro de Lisboa está desertificado (ups palavra errada). Ora como vêem a Margem Sul é já aqui ao lado e não fosse a ponte 25 de Abril, seria um pulinho muito rápido chegar a Lisboa, mas isso são outros quinhentos…
2 -É curioso ver as manadas da Margem Norte, em pleno verão e aos fins-de-semana, a invadirem o deserto da Margem Sul. Pois é, é que a malta lá no deserto tem praias para dar e vender, uma noite que começa a dar cartas e a tirar clientela a Lisboa e alguns sítios bem aprazíveis aos olhos dos palpitantes Lisboetas. Afinal o deserto até tem algumas coisas boas, senão não estariam 2 horas nas desesperantes filas para chegar lá…
3 - E não esquecer, o Aeroporto sempre vem para a Margem Sul e azar do catano, os turistas vão aterrar no deserto e começar logo aqui a gastar o dinheiro, nesta terra longínqua, perdida entre urbanismos comunistas e praias de perder de vista, a escassos quilómetros da capital.
Há ainda quem fale ainda do "South Side Power", um conceito por explorar mas que, cheira-me, pode implodir por aí alguma coisa...
Devo fazer aqui uma confissão: moro no Deserto há 23 anos mas tenho a maior parte dos meus amigos em Lisboa que é a minha capital e uma cidade que aprecio bastante, onde conheço vários recantos interessantes. Quero com isto dizer que não tenho nada contra Lisboa, muito pelo contrário, é lá que passo mais de metade da minha vida por opção.
Mas porra, isto de viver no deserto também tem vantagens: onde é que em Lisboa se come um Cacto com natas ou se bebe um leite de Cacto fresquinho à beira-mar, hã??
“O que seriam os desertos da vida sem as brilhantes miragens dos nossos pensamentos!” France , Anatole
A labuta estava prestes a terminar quando o meu telemóvel começou a ser invadido por mensagens, dignas de uma sexta-feira: convites para sair, politiquices, desvarios e muito etc.
Organizo a agenda e quando dou por ela estou a entrar numa casa, algures em Alvalade, casa de desconhecidos para mim, mas conhecida para quem me acompanha.
A casa tem uma disposição típica das casas antigas de Lisboa: muito comprida, com um corredor a perder de vista, paredes caiadas, interruptores à antiga portuguesa e uma decoração a dar para o “old school”.
Os anfitriões vivem em regime comunitário: a casa é alugada e partilha-se a renda, tal e qual fazem os estudantes universitários por todo o país, tentando poupar assim uns trocos para mais umas borgas "comme il faut".
Um deles é Advogado, outro trabalha na maior empresa de Telecomunicações nacional e um 3º elemento, desconhece-se a profissão mas tem jeito para provocar ruído...
Depois dos cumprimentos de praxe, rumamos à enorme varanda, onde a conversa iria girar à volta de arquitectura. Nos poucos metros que separavam a sala da entrada da varanda e, ao passar pela sala, deparamo-nos com uns ruídos "familiares", oriundos de uma porta semi-aberta.
Dali ecoavam gemidos de prazer, indiferentes a quem por ali passava. Surpreendidos com tal cenário, olhámos uns para os outros e sorrimos, até que alguém se lembrou de mandar para o ar uma daquelas frases de ir às lágrimas: “não há tusa para tanta musa” e a batida "dá-lhe com fé". O riso explodiu naquela sala.
A resposta veio com um bater de porta fulgurante que em nada acalmou os gemidos...
Dirigimo-nos à varanda, por entre risinhos cheios de maldade, onde mantivemos uma amena conversa e onde um futuro arquitecto nos tentou mostrar que a arquitectura não é a forma mas sim a maneira como a forma interage com o conteúdo e vice-versa, a harmonia dos espaços.
Já passara uma hora e a conversa estava ao rubro quando aparece o 3º elemento da casa: vermelho que nem um tomate, solta um “boa noite”. Ninguém foi capaz de se conter e ali mesmo todos se descascaram a rir, “boa noite? Só se for para ti, lol”.
E é então que o rapaz deixa cair um lamento: “as gajas tiram um homem do sério, a Rita (nome fictício) já se foi embora e não me admiro que daqui a uns minutos esteja a gemer noutro lado, fdx”.
Ups…ninguém estava à espera de ouvir esta, e eis que ele remata com a frase que, definitivamente, arrasa qualquer tentativa de conter o riso: “nunca ouviram dizer que as mulheres não são de confiança? Se o fossem Deus tinha uma e o Diabo não tinha cornos!”. Irra que impetuosidade!
Enquanto o riso ecoava por todo o jardim em frente à varanda, eis que aparece na dita cuja, uma miúda muito bem dotada que, pelos vistos, estaria num dos quartos a ouvir a conversa e ali, perante todos, não se conteve e sem dizer sequer boa noite, atirou a matar: “oiçam lá, as mulheres nunca traem os homens, só praticam o que aprenderam com eles”. Toma lá que já aprendeste!
E é por isto que a guerra dos sexos nunca terá um vencedor: há demasiada confraternização entre inimigos ;)